Não sou de ninguém...
Hoje,senti-me como se algo de muito profundo se tivesse abatido sobre mim.
Enquanto outras pessoas celebram a amizade-essa maneira de unirmos o nosso coração a outro,dando-nos por inteiro a alguém com quem rimos,conversamos,choramos,partilhamos momentos,alegrias e desabafos-eu percebi hoje aquilo que já há muito sabia,mas que não tive coragem de reconhecer.Algo que me fez questionar se gozo realmente,dessa forma de amor tão pura que é a amizade.
Enquanto outros conversam,desabafam,choram,riem,se entrega, por total a outrem,ou seja,vivem,em pleno,esse sentimento de fazer parte de algo com alguém,eu,será que me dou,será que me entrego,será que alguma vez me entreguei a alguém?
Nunca.
Reconheço hoje que não tenho essa capacidade,esse dom de me fundir alguém,entregar o meu coração a outra pessoa que nem eu.Repito várias vezes:«Não sou de ninguém.Pertenço a mim própria.»E penso quão amarga essa frase soa.
Recordei hoje de manhã o meu passado,os momentos vividos ao lado de outros,outros a quem eu chamo de Amigos-não hesito sequer em utilizar essa palavra-,aqueles que são,em teoria,os que me apoiam nesta jornada que é a vida e que me pegam na mão quando nada parece bater certo.E penso:«Alguma vez chorei com eles?»Alguma vez,na solidão das minhas lágrimas,pedi um abraço,um beijo?Alguma vez,Melissa Cristóvão,deixaste que alguém te visse chorar?Ou calaste-te,negaste o que sentias,recusaste as ofertas de apoio incondicional e fechaste-te em ti própria,preferindo estar sozinha,sorrir juntos aos outros e guardar as lágrimas para depois?
Entristece-me pensar que nunca fui honesta com ninguém.Vejo agora os pedaços de mim que guardo,que guardei,que reservei para mim própria ao longo de tempo.Tanta coisa que não partilhei,tanta história que não foi contada!Aquilo que até hoje me marcou mais,aquilo que me causou mais dor,aquilo que me levou tanto tempo a tentar controlar(e que ainda hoje não controlo por completo),aquilo que me define como pessoa,o ponto de viragem na minha vida,alguma vez o partilhei com alguém?Não.Guardo tudo para mim,religiosamente trancado no coração,fechado num sítio cuja localização os outros nem sequer intuem.Cada pensamento,aqueles momentos de aflição,assim como algumas pequenas alegrias...tudo guardado cá dentro.
Não posso dizer qeu o meu coração esteja ligado ao de alguém.Não me entendam mal,eu tenho amigos,e esses amigos sabem perfeitamente que podem contar comigo,para o que der e vier,e muitas vezes os vejo sofrer,os consolo,oiço os seus desabafos.Mas,de mim,esses amigos levam histórias,teorias,gargalhadas dadas com o som no máximo e uma falsa disposição alegre.Há tanta coisa de mim que eles desconhecem.Tenho uma necessidade tão grande de me isolar,uma necessidade tão urgente de mostrar apenas uma face de mim,de dizer que tudo está bem,ou que tudo está mal,de contar as histórias pela metade,não para me exibir,mas para me proteger.É como se tivesse construído um muro à minha volta,e dentro do muro está aquilo que eu nego existir.E há quem me diga:«Tu és como um livro aberto».Isto porque eu tenho por natureza uma disposição impulsiva,uma gargalhada rápida e uma língua veloz.Mas as lágrimas,essas,caem devagarinho,e ficam sempre guardadas cá dentro para mais tarde.
Penso um pouco mais nisto,e não seremos todos assim?Não guardamos desejos,sonhos,ilusões,acontecimentos,momentos que preferimos ver como nossos e de mais ninguém?Essa reserva,essa recusa em partilhar talvez seja,no fundo,aquilo que nos dá segurança.Saber que perteno a mim própria dá-me,por vezes,uma estranha sensação de poder,poder esse que não uso,pois usá-lo seria o mesmo que deitar as cartas na mesa e revelar quem sou...
Mas,se assim for,se guardarmos para nós tanta coisa,inclusivamente certos aspectos da nossa personalidade,não seremos hipócritas ao dizer que pertencemos a alguém,que o nosso coração está unido ao de essa pessoa?Não seremos nós,seres humanos,que celebramos o amor e a amizade acima de tudo,considerando-os como as duas grandes forças deste mundo,tão sós e miseráveis que nos tornamos quase incapazes de amar alguém no verdadeiro sentido da palavra?....
